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FRAGMENTOS

 
Sentei algumas vezes para escrever essa cartinha ao longo dos últimos meses, saiu alguns recortes, trechos de coisas que já nem lembrava. Não queria que fosse assim, picotado, então começava a escrever algo diferente toda vez que sentava na frente do computador. Acumulei começos.

Espero que você goste desses fragmentos, ficaram suspensos no tempo, guardados, pegaram um pouco de poeira, mas são meus. E quero dividir com você.
 

Episódio 1 | perdi a conta quantas vezes esquentei o chá


Estou tomando bastante chá, peguei a mania de colecionar xícaras na minha mesa ao longo do dia. É uma habilidade impressionante. Infelizmente não consegui desistir do café, ele ainda é meu melhor companheiro durante todas as manhãs. Sou daquelas que só sinto que acordei mesmo depois do café, dizem que quando você chega nesse ponto é porque a coisa tá feia. Por causa disso, achei que seria uma boa ideia diminuir, então agora eu tomo chá. Muito chá. 

Estava exagerando no café e no resto.

Até faz sentido, estamos presos em casa - ou deveríamos estar, né - é fácil demais perder a noção da quantidade de café, da quantidade de horas trabalhadas, da quantidade de comida.

Da quantidade de saudade.

Eu tomo o chá mais devagar, é um relacionamento diferente, mais calmo e equilibrado. Com o café era tudo rápido, frenético e agitado. Até fazia o café com calma, tinha a intenção de tomar devagar, degustar cada gole, no entanto, tomava tudo de uma vez quase sempre. No fundo acho que queria que essa substância entrasse no meu sistema o mais rápido possível, assim logo me sentiria "funcionando" novamente.

Ás vezes esquecia do café e ele esfriava, quando voltava a pegar a xícara para um gole, distraída, aquele café frio descia arrepiando a sola do meu pé. Não consigo lidar com café frio.  

Com o chá isso acontece com mais frequência. Perco a conta da quantidade de vezes que vou até a cozinha pra esquentar. Perco a noção do tempo, parece que acabei de preparar e ele já esfriou. O braço do micro-ondas deve estar cansado de encontrar minha mão ali o tempo todo. Eu gosto desse ritual desencaixado, me traz uma sensação estranhamente boa quando percebo que perdi a conta de quantas vezes esquentei o chá. 
 



Episódio 2 | um bloqueio

Parei um pouco para pensar no porquê estou me sentindo bloqueada para escrever essa cartinha. A ficha caiu logo: sobre o que diabos eu vou escrever? Eu nunca preparei a news com antecedência, sempre foi no calor do momento com as coisas que estavam na minha cabeça naquela hora. Não existia um planejamento nem nada. 

Só que agora, na pandemia, existe uma falta enorme de sentido - ainda mais para as coisas que estão na minha cabeça. Não quero escrever sobre as raivas, ansiedades e angústias diárias, para isso estou usando um journal, fazendo a tal da morning pages - que está indo super bem por sinal. Um depósito para pensamentos e sentimentos, quem diria que faria tão bem!

Passou pela minha cabeça a ideia de escrever aqui um update da minha vida. Fiquei rindo disso comigo mesma depois, porque a real é que não tem nada pra contar, nada que eu já não tenha dito no twitter, no instagram ou no blog. A newsletter ficou num lugar complicado, meio perdida entre todas essas opções. A minha intenção não é - nunca foi - abandonar a cartinha, só preciso encontrar um caminho pra ela. 

Talvez um planejamento ajude. 



Episódio 3 | as manhãs

Quase todas as manhãs eu tenho escutado algum podcast. Gosto de fazer isso pela manhã porque inibe a minha vontade de pegar o celular e ficar nas redes sociais. Os dias em que acabo sucumbindo ao desejo insano de entrar no _insira aqui qualquer rede social_ tudo vai por água abaixo.

Decidi que era hora de mudar alguns detalhes, agora minha tela inicial não tem nada de chamativo e nenhuma notificação, tem apenas meus apps de produtividade (agenda, notion etc) e o app de podcasts. Quando  pego o celular pela manhã e vejo esses aplicativos, perco a vontade de entrar no twitter - e tem dia que realmente esqueço que existem esses buracos negros que chamamos de redes sociais - acaba sendo mais fácil ficar ouvindo um podcast enquanto estou ali na cama do que entrar no Instagram, até porque deixei os aplicativos de redes sociais bem escondidos. 

É uma pena os dias que me lembro da existência da ferramenta busca.

Enquanto ouço o podcast costumo esticar o tapetinho e fazer um pouco de yoga (minha coluna agradece), bebo água, arrumo a cama, me troco e desço para fazer o café da manhã. O podcast me mantém entretida enquanto afundo nos movimentos automáticos dessa rotina. 

Os podcasts que mais escutei nos últimos dias:

  • Books Unbound (em inglês)
  • Mamilos
  • Bobagens imperdíveis
 

Tenho também uma lista clássica de podcasts que vou amar para todo o sempre e fico escutando repetidamente:

  • Sinapse
  • Eu Organizado
  • What i should read next? (em inglês)
  • Welcome to night vale (em inglês)

Pra ser sincera, essa tem sido minha melhor rotina nos últimos meses, tentei de tudo, me esforcei, planejei, programei, me matei e o negócio não estava fluindo. Desisti de colocar um horário fixo para acordar ou dormir.  A melhor solução foi tacar o foda-se mesmo e seguir a filosofia do Zeca Pagodinho: deixa a vida me levar, vida leva eu.

Mesmo sem horários fixos para acordar ou para ir dormir, sempre tento seguir essa pequena rotina nas minhas manhãs: Podcast, yoga, água, arrumação, café da manhã.

 

Episódio 4 | quero pintar sentimento

Comentários do DVD de Portrait of a Lady on Fire por Céline Sciamma (Parte  1) | by Merlant & Haenel BR | Aug, 2020 | Medium

O filme "O retrato de uma jovem em chamas" me conquistou de um jeito que poucos filmes conquistaram. Eu assisti e me envolvi com a história, gostei dos personagens, admirei a fotografia. Foi ótimo, eu disse por aí e segui em frente. Só que assisti esse filme em fevereiro, estamos em julho e eu aqui pensando nele.

Claramente não superei.

Cenas ficam voltando na minha memória quando me vejo distraída, especialmente as cenas com as pinturas. Devo confessar que tenho uma ~quedinha~ por filmes que envolvem pinturas, tintas, aventais manchados, artistas imersos em sentimentos. Me traz uma nostalgia enorme, me dá um lugar para pertencer.

No filme, uma jovem pintora é contratada para fazer o retrato de uma dama. Porém, a moça não queria saber de retrato coisa nenhuma e dava um chega pra lá nos pintores que tentavam tamanha façanha. A jovem pintora se vê desafiada a fazer esse retrato sem a outra saber, precisa se aproximar da moça para captar detalhes e reproduzi-los em segredo na tela. Mas alguns sentimentos inesperados começam a entrar no seu caminho e tomar conta de tudo.

Cara, vou te falar viu: esse filme é muito lindo. Ponto final.

Fiquei admirando aquelas cenas da jovem pintora em ação,  lembrando o quanto nunca fui boa em pintura, ao menos foi o que me disseram na faculdade. Cursei Artes Visuais e tive um professor de pintura que queria ver técnica, precisão e excelência. Eu só queria sentimento. Queria sentir a tinta na tela, brincar de misturar as cores, experimentar, sujar os dedos, ouvir o som delicado do pincel enquanto pintava. A técnica é essencial, mas sem sentimento... de que adianta?

Eu quase repeti na matéria dele.

Hoje não faria diferente, continuaria a querer pintar sentimento, quem sabe até retratar uma jovem em chamas.

Todas as imagens são da artista Hélène Delmaire.
Ela que fez as pinturas que aparecem no filme citado acima. 
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Essa newsletter foi escrita por Rita Zerbinatti 

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